Ser au pair é uma das experiências mais ricas que uma jovem pode viver: um novo idioma, uma nova família, uma nova cultura, uma nova versão de si mesma. Mas essa mesma riqueza carrega um peso emocional que poucos programas falam abertamente.
A saudade. A pressão de “dar certo”. A sensação de não pertencer. A exaustão de tentar ser profissional, hóspede e ao mesmo tempo estar aprendendo quem você é longe de tudo que conhece.
Se você está passando por isso — ou se conhece alguém que está — este artigo é para você.
O que a ciência diz sobre saúde mental de brasileiros no exterior
A experiência de morar em outro país tem nome na psicologia: aculturação. O psicólogo canadense John Berry (1997), referência mundial no estudo de migração e saúde mental, definiu aculturação como “o processo de mudança cultural e psicológica que resulta do contato entre dois grupos culturais”.
Berry identificou que a forma como uma pessoa lida com esse processo — se tenta integrar-se, assimilar-se, isolar-se ou separar-se culturalmente — influencia diretamente seu bem-estar psicológico. Pessoas que buscam integração (mantendo a própria cultura enquanto absorvem elementos da nova) tendem a apresentar melhores resultados de saúde mental.
O problema é que au pairs muitas vezes não têm nem o tempo nem o suporte necessário para fazer essa transição de forma saudável.
Os desafios específicos de ser au pair
1. A ambiguidade do papel social
Au pairs vivem num limbo social peculiar: não são funcionárias, mas também não são filhas. Não são hóspedes, mas também não são parte plena da família. Essa ambiguidade de papel — estudada amplamente na literatura de psicologia organizacional — é uma fonte crônica de estresse.
Segundo pesquisa de Bikson & Bikson (2001) sobre jovens em imersão cultural, a falta de clareza sobre expectativas e papéis é um dos principais preditores de burnout intercultural — um estado de exaustão física e emocional decorrente do esforço contínuo de adaptação.
2. Ansiedade de desempenho e autocrítica
Longe de casa, há uma pressão implícita de “não decepcionar”: a família anfitriã que confiou em você, os pais que apoiaram a decisão, os amigos que ficaram no Brasil esperando histórias de sucesso.
Essa pressão alimenta um ciclo de ansiedade de desempenho: quanto mais você teme errar, mais rígida fica a autocrítica, mais difícil fica relaxar, menos você aproveita a experiência.
Na TCC, esse ciclo é chamado de tríade cognitiva negativa — um padrão de pensamentos automáticos sobre si mesmo (“não sou bom o suficiente”), sobre o mundo (“não vou me adaptar”) e sobre o futuro (“isso nunca vai melhorar”), descrito originalmente por Aaron Beck em seu trabalho sobre depressão.
3. Solidão e luto migratório
Existe um conceito pouco conhecido mas muito preciso para o que muitos au pairs sentem: o luto migratório. O psicólogo espanhol Joseba Achotegui dedicou décadas ao estudo do sofrimento emocional de migrantes e criou o termo Síndrome de Ulisses para descrever o estresse crônico e múltiplo de quem migra sem redes de suporte adequadas.
Embora au pairs não sejam migrantes no sentido tradicional, os mecanismos emocionais são semelhantes: a saudade da família e dos amigos, a perda do ambiente familiar, a ausência de rituais cotidianos que dão suporte à identidade.
“O luto pela língua, pela família, pelos amigos, pelo país — esses são lutos reais, que merecem ser reconhecidos e elaborados.”
— Joseba Achotegui, Migración y Salud Mental (2009)
4. Conflitos com a família anfitriã
Dinâmicas familiares complexas existem em qualquer casa. Quando você é au pair, navegar por essas dinâmicas em outro idioma, com outra cultura como pano de fundo, torna tudo mais desafiador.
Conflitos sobre limites (onde termina o horário de trabalho?), expectativas (quantas tarefas são “razoáveis”?) e comunicação emocional são fontes frequentes de sofrimento — e muitas vezes são silenciados por medo de perder o programa.
Sinais de que você precisa de suporte
Nem todo mal-estar é sinal de que algo está errado. Um grau de desconforto faz parte de qualquer processo de crescimento. Mas alguns padrões merecem atenção:
- Dificuldade de dormir ou acordar com ansiedade frequente
- Choro sem motivo aparente ou sensação persistente de vazio
- Isolamento — evitar contato com amigos, família ou colegas au pair
- Pensamentos acelerados ou dificuldade de desligar a cabeça
- Irritabilidade desproporcional com situações cotidianas
- Perda de prazer em coisas que antes eram fontes de alegria
- Sensação de que você está interpretando um personagem o tempo todo
Esses são sinais de que sua mente precisa de cuidado — não de julgamento.
Como a psicoterapia online ajuda au pairs
A psicoterapia online tem uma vantagem específica para quem vive no exterior: ela está onde você está.
Não importa se você está nos Estados Unidos, na França, na Alemanha ou na Austrália — uma sessão semanal de 50 minutos pode ser o único espaço da semana em que você fala português, sem a necessidade de traduzir seus sentimentos para outro idioma.
Usando a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), podemos trabalhar juntas para:
- Identificar e questionar pensamentos automáticos que alimentam ansiedade e autocrítica
- Desenvolver estratégias práticas de regulação emocional para o dia a dia do programa
- Trabalhar os conflitos com a família anfitriã de forma assertiva e construtiva
- Elaborar o luto migratório sem minimizá-lo
- Construir um repertório emocional que permaneça com você muito além do programa
A terapia não vai resolver os problemas externos — mas vai te dar ferramentas para encará-los de frente, com mais leveza.
Uma palavra sobre a família que também precisa de apoio
É importante dizer: famílias que recebem au pairs também passam por processos de adaptação. Ter uma pessoa nova dentro de casa — especialmente para cuidar dos filhos — exige comunicação, paciência e clareza de limites que nem sempre são naturais.
Se você é pai ou mãe e percebe que a relação com a sua au pair está gerando conflitos — seja na comunicação, na definição de expectativas ou nas dinâmicas com os filhos — esse também é um tema que pode ser trabalhado em psicoterapia. Vínculos saudáveis se constroem, não surgem espontaneamente.
Você não precisa estar “em crise” para buscar ajuda
Talvez o maior equívoco sobre psicoterapia seja achar que ela é um recurso de emergência. Não é.
Terapia é um espaço de autoconhecimento contínuo — especialmente valioso justamente nos momentos de transição, como o au pair. É onde você aprende a se conhecer fora do contexto familiar, onde questiona quem você quer ser, onde constrói recursos emocionais que durarão a vida toda.
O melhor momento para começar é antes da crise chegar.
Referências
- Berry, J. W. (1997). Immigration, acculturation, and adaptation. Applied Psychology: An International Review, 46(1), 5–34.
- Achotegui, J. (2009). Migración y Salud Mental. El Síndrome del Inmigrante con Estrés Crónico y Múltiple (Síndrome de Ulises). Norte de Salud Mental, 7(32), 51–60.
- Bikson, T., & Bikson, T. K. (2001). International students and mental health. Journal of College Student Psychotherapy, 16(1-2), 87–109.
- Beck, A. T., Rush, A. J., Shaw, B. F., & Emery, G. (1979). Cognitive Therapy of Depression. Guilford Press.
- Bhugra, D. (2004). Migration and mental health. Acta Psychiatrica Scandinavica, 109(4), 243–258.
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